terça-feira, 20 de maio de 2014

LANÇAMENTO DO LIVRO DE ROCHA DE SOUSA: "OS FANTASMAS DE LISBOA"












Tudo o que Rocha de Sousa nomeou como desastres principais, naufrágios, personagens ilustradas na sua obra plástica, também está inserido em toda a sua obra plástica. E este grande livro, de formato pequeno, convoca-nos, sem excepção, ao amplo espaço da vida, lugar de todos nós e onde alguns de nós travam as mais duras batalhas do mundo: umas vezes ganhando e outras vezes perdendo. Nestes 21 capítulos podemos assistir a alguns desses momentos — olhar a felicidade dos outros enquanto vemos a nossa, olhar a dor dos outros enquanto sentimos a nossa; em suma, ver os outros enquanto nos vemos a nós próprios. Os Fantasmas de Lisboa é, assim, um livro feito de reflexos que ilustram o sentido humano e trágico ao longo da marcha evolutiva.

Por vezes, certos espectros (ou certos fantasmas) são bem definidos, ao ponto de nos dar a ver com enorme nitidez a imagem do presente e do futuro.

VEJA POR SI. DESCUBRA POR SI. EM "OS FANTASMAS DE LISBOA" de Rocha de Sousa

Miguel Baganha

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

LANÇAMENTO DO LIVRO de ROCHA DE SOUSA: "NARRATIVAS DA SUPREMA AUSÊNCIA"

Um livro tão actual quanto oportuno já que a Humanidade tende a minimizar e até a esquecer todas as ignomínias e seus autores, figuras que alimentaram a práxis política/religiosa tão responsável pelos males que infectam o mundo e atrasam a marcha civilizacional.

Rocha de Sousa é um autor que aborda a relação e os sentidos do Homem, de Deus e das coisas. E a contemporaneidade das suas palavras deverá perdurar até longe no futuro. 

As suas histórias representam aventuras no terreno da vida de onde ele próprio parte como principal aventureiro no terreno das ideias. Ao conhecermos uma personalidade com estas características, verificamos, sobretudo, que a imaginação é um espectáculo tão fascinante e envolvente quanto o desfilar da própria acção. Porque imaginar é como explorar novas terras.
Poder-se-á dizer que a ficção se assemelha a um efeito de espelho, e talvez seja; talvez o leitor se limite a procurar nos livros o que já sabe, aquilo que lá vai encontrar de peculiarmente seu. Mas caso se trate desse efeito em ficção, o resultado é tão mais requintado e complexo quanto mais transformador do real conseguir ser. Podemos, assim, encarar a ficção como uma insofismável e suprema presença artística. Mas a arte de Rocha de Sousa também se afirma "realmente" em outras vertentes: Cinema e Teatro, Pintura e DesenhoBelas-Artes desde sempre na deriva da mobilidade visual.

Observando a sua escrita mais de perto, compreendemos que a sintaxe por si utilizada, não esquecendo as influências que nos cercam a todos na viagem da vida, possui uma anatomia própria, formada por um método muito particular ora desenhando minuciosamente as letras e pintando as palavras com a paleta do mundo, ora construindo e filmando cenários reais e impossíveis, desastres principais ou a inevitável condição humana à mercê dos castings que só a sua imaginação e pendor intuitivo conseguem processar.

NSA de sigla, ou Narrativas da Suprema Ausência é um livro feito no LIMITE DO APOCALIPSE, são PALAVRAS ÍMPIAS escritas no INVERNO DOS IMPÉRIOS ou o COMEÇO DE UM NAUFRÁGIO, são os DESASTRES PRINCIPAIS ou a DECADÊNCIA ANTECIPADA; é o HOMEM MUTILADO cá dentro, impotente, que nada faz senão contemplar O CREPÚSCULO DOS DEUSES e sonhar com A TERRA PROMETIDA. São ideias flexíveis como CANAS DE BAMBU, é a MORTE DAS PALAVRAS em nome da CULTURA IRRACIONAL onde O GRITO DA IMOLAÇÃO entoa A BALADA DA MEMÓRIA CEGA. E as IMAGENS DA ESCRITA, a bordo de UM NAVIO SEM DONO NEM FANTASMAS, lembram as ESCOLAS DO SILÊNCIO onde ensinam OS NAUFRÁGIOS TODOS; aí , nesse espaço vazio de humanismo, escuta-se O RUÍDO QUE PRECEDE A MORTE, são AS PALAVRAS ARDENTES gritadas POR NÓS DENTRO DE NÓS, é O SER E O NADA OU AS PERDAS, A PERDA DAS MEMÓRIAS EXCESSIVAS e A FALA E AS ESCRITAS DO DESERTO AO MARTÍRIO. É aqui, enfim, que tudo começa e tudo acaba: hoje OS CONTINENTES MORREM DEVAGAR, uma MORTE EM SOLIDÃO em nome de UM MUNDO SEM RAZÃO.

Estes são os 28 capítulos de um livro que «não tem género», uma ideia criada «porque sim». Uma razão sem razão que se dilui «no horizonte da vida», metamorfose ocorrida «segundo novas formas de martírio, pelo fio do quotidiano, às vezes em plena solidão, os dedos endurecidos batendo o discurso de todos os testemunhos
São «factos dispersos, descontextualizados, relativos a diferentes aparências», imagens que nos queimam «a alma, sonhos fugidios ou quedas desamparadas.
Há em nós gavetas para guardar memórias de tudo isso, prateleiras em miniatura onde se sobrepõem os diversos documentos que narram a vida de cada pessoa, em cada pessoa, retendo cadastros complexos, apontamentos em velhos cadernos diários, ou revendo certos casos de pétalas desidratadas ou descoloridas.
Saber a memória de um homem assim, sem o poder ver e acompanhar rasga o nosso psiquismo, faz-nos conviver com ansiedade, incompreensivelmente debruçados sobre uma gravura sem magia nem alma, e o que nos resta, talvez mais tarde, é percorrer a sua escrita para desvendar histórias de uma grandeza esquecida, riscos, aventuras, naufrágios, escaramuças, a ideia de honra e de coragem, a ideia de nação, letra a letra, palavras antigas de uma bela carpintaria de texto, invenção de um mundo que nunca ninguém vira, apesar dos nomes, das vozes dos comandantes, o passado de novelas que os livrinhos da primária nem assinalavam, embora nos carregassem as meninges com a água dos rios todos de Portugal continental e ultramarino.»


Breves memórias nítidas e desfocadas. 
Narrativas supremas de um homem de 
ontem, de hoje e de amanhã.Verdades 
conhecidas e narradas por um homem 
anónimo que o mundo conhece mas
não quer reconhecer.

Miguel Baganha

quarta-feira, 21 de março de 2012




Listagem das fotografias (e respectivos autores) que estarão expostas na exposição colectiva "FotoÁgua", a inaugurar no dia 21 de Março, às 19:00, na Estação Elevatória a Vapor dos Barbadinhos do Museu da Água da
EPAL.

Menção Honrosa - Ria Formosa | Tela Leão
Menção Honrosa - "Naturalidade" - Ribeiro da Labrugeira, Alenquer | Dina Brito
Vencedora - "Habit(u)ação" - Delft (Holanda) | Dina Brito
Menção Honrosa - "Destino" - Lagoa do Fogo, S. Miguel (Açores) | Dina Brito
Menção Honrosa - "Contraste" - Ericeira | Maria Guiomar Dugos
Vencedora - "Bola de Sabão" - Puerta del Sol, Madrid | Raquel Vilela
Vencedora - "Epal, a Catedral da Água" - Mãe d´Água das Amoreiras | Alexandre Baganha
Menção Honrosa - "Regresso à Origem I" - Pav. do Conhecimento, Pque das Nações | Carlos Santos Taborda
Menção Honrosa - "Água e Ar 2" - Coruche | Zeljko Vukosav
Menção Honrosa - "Chovendo no Molhado" - Quinta das Conchas e dos Lilases, Lisboa | Alexandre Baganha
Menção Honrosa - "Refletindo" | Luciane Aria
Vencedora - "O Mundo das Aparências" - Amarante | Maria João Vasconcelos
Vencedora - "Orientação" - Lavadouros de Peniche | Dina Brito
Menção Honrosa - "O Encontro" - Museu Nacional do Trajo/Teatro, Lisboa | Alexandre Baganha
Menção Honrosa - "Água Que Descansa" - Amazónia | Luciane Aria
Menção Honrosa - "Anoitecer" - Praia da Adraga, Sintra | Maria Guiomar Dugos
Vencedora - "Um Beijo Molhado" - Jardim Zoológico de Lisboa | Alexandre Baganha
Menção Honrosa - "Água e Sol - Encontro" - Paisagem Rural Bairro Demetria, Botucatu, São Paulo | Ana Paula Winckler
Menção Honrosa - "Macho e Fêmea" - Casa, Amarante | Maria João Vasconcelos
Vencedora - "Água Abençoada" - Quinta das conchas e dos Lilases, Lisboa | Alexandre Baganha
Menção Honrosa - "Outono Submerso" - Quinta das Conchas e dos Lilases, Lisboa | Alexandre Baganha
Menção Honrosa - "Tranquilidade das Águas" - Zona rural de Botucatu, São Paulo (Brasil) Ana Paula Winckler
Vencedora - "Arquitetura e Água" - Florença (Itália) | Luciane Aria
Menção Honrosa - "Flutuante" - Manaus, Amazonas (Brasil) | Luciane Aria
Menção Honrosa - Fim de Tarde" - Barra do Una, São Paulo (Brasil) | Luciane Aria
Menção Honrosa - "Invicta em Tons Rosa", Porto | Mariana Inácio
Menção Honrosa - "Tarsila do Amaral" | Adelina Guimarães
Menção Honrosa - "Garganta do Diabo" | Adelina Guimarães
Vencedora - "Aquário em Lago" - Jardim da Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa | Isabel Maria Janeira
Menção Honrosa - "H2O" - Bairro das Fontaínhas, Porto | Alexandre Baganha
Vencedora - "Reflexos" - Patio de los Arrayanes, Alhambra | Diana Constant
Menção Honrosa - "Uma Manhã de Chuva" - Rossio, Lisboa | Ana Maria Proserpio
Menção Honrosa - "Água Mole" - Mãe d´Água das Amoreiras | Bárbara Exposto
Menção Honrosa - "Água, Reflexo de Vidas" - Parque das Nações | Sónia P. Gonçalves
Menção Honrosa - "Espelho Inverso" - Parque das Nações | Sónia P. Gonçalves
Menção Honrosa - "Uma Simples Gota de Água", Algarve | Nuno Soares
Menção Honrosa - "Boiar na Água " - Piscina na Aroeira, Seixal | Raquel Vilela
Vencedora - "Playing With and Nearby the Water" - Nova Iorque (EUA) | Luísa Lima
Menção Honrosa - Rio das Termas de S. Pedro do Sul | Lena Horta Lobo
Menção Honrosa - "Movimento do Rio" - Jardim Constantino Palha,Vila Franca de Xira | Ana Serra
Menção Honrosa - Da Água, Com Amor" - Ilha do Faial (Açores) | Dina Brito
Menção Honrosa - Tirada em Casa | Maria João Vasconcelos
Menção Honrosa - "Check In" - Ilha de S. Miguel (Açores) | Dina Brito
Menção Honrosa - "A Fonte Milagrosa" - Amarante | Maria João Vasconcelos
Vencedora - "Futuro" - Parque das Nações | Tânia Espirito Santo
Menção Honrosa - "Espelho do Céu" - Arraiolos | Tânia Espirito Santo
Menção Honrosa - "Purificação", Mafra | Sérgio de Medeiros
Vencedora - "Jogos de Água" - Albufeira do Gerez | Maria Guiomar Dugos
Menção Honrosa - "O Sol Espelhando-se na Ria Formosa" - Ria Formosa, Algarve | Ricardo Nunes
Menção Honrosa - "Reflexo no Frio dos Arcos" - Arcos de Valdevez | Mariana Inácio
Menção Honrosa - "Plaza de España" - Sevilha | Adelina Guimarães
Menção Honrosa - "À Espreita Sob a Ponte de Tavira" - Tavira | Mariana Inácio
Menção Honrosa - "Gota Rústica" - Serra d´El Rei | Mariana Inácio
Menção Honrosa - "A Panorâmica da Vida" - Mãe d´Água das Amoreiras | Alexandre Baganha
Menção Honrosa - "Um Mar de Água" - Praia do Porto das Carretas, V. N. Sto André | Alexandre Baganha

quarta-feira, 14 de março de 2012

LANÇAMENTO DO LIVRO - "LÍRICA DO DESASSOSSEGO" de ROCHA DE SOUSA

Certos críticos dizem que a linguagem (leia-se método de escrita) é o que torna um livro insuportável ou fascinante. Oscar Wilde disse que «não há livros morais ou imorais: apenas livros bem escritos ou mal escritos». Embora concorde, parcialmente,  com a afirmação do notável dramaturgo irlandês, penso que o nível literário de um livro não deve ser avaliado segundo critérios pessoais que assentem em bases ideológicas religiosas ou políticas (o convencionalismo unilateral e linear sempre teve um efeito castrador). Se o leitor é simplesmente incapaz de compreender ou de concordar com uma determinada linguagem isso não lhe dá o direito de criticar negativamente um livro para outros, cujo nível intelectual ou vivencial se encontre no mesmo comprimento de onda, o mesmo livro pode tratar-se de uma obra literária de extrema qualidade. Para se compreender um livro, para se entender a sua verdadeira linguagem, é preciso, por vezes, procurar ler nas entrelinhas e descobrir certas verdades que estão ocultas.

Rocha de Sousa, pode servir de exemplo para esta introdução. O erudito escritor algarvio já habituou os seus leitores a uma linguagem muito peculiar, subliminar na sua mensagem de fundo e sempre tocando profundamente a condição humana. Todo este contexto sisifiano é alimentado pela sua invulgar capacidade imaginativa, onde, por meio de uma refinada adjectivação, nos leva a um inevitável encontro com nós próprios.

 

«Lírica do Desassossego, procura reinventar uma personagem da própria obra escrita e fílmica do autor, percurso existencial de certa natureza psicilógica que atravessa um imaginário feito de imagens e gentes de vários quotidianos, entre simbologias pictóricas a para de registos onde a tonalidade sensual trava certa batalha por um retrato de mulher, impossível mas conotado com lugares e patrimónios de referência.»

 

O livro é maravilhoso, engraçado, espirituoso, vibrante e pleno de sátira sobre a dúbia razão de certas escolhas feitas na idade da razão. Uma história pungente e actual. Imperdível. Um retrato pintado em tons de ocre, quentes e secos, como a savana de África.

Miguel Baganha 

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Pórtico de «Lírica do Desassossego»:


Ainda se lê, muitas vezes, em prefácios de certas obras, a propósito de um texto, história, aparente correspondência de factos, a seguinte nota: qualquer semelhança entre a realidade e esta obra é pura coincidência.

Eis o que acontece com o livro «Lírica do Desassossego». Para muitos, contudo, nestes e noutros casos, a coincidência, citada de tal forma, não passa de um aviso furtivo, encobrimento de diferentes veracidades. Há quem a entenda, por exemplo, como providência cautelar, antecipação da desculpa ou alteração decisiva da cor de um novelo que se desenrola sem montagem. 

«Lírica do Desassossego», assegura o autor, coincide no título e na crise de um vídeo que (ele próprio) realizou, há largos anos, com alguém que estava de passagem por Lisboa. E acrescenta, por sua vez, que a coincidência dos títulos das duas obras é sobretudo um modo de registar de igual maneira um romance e um filme, apesar da diferença de conteúdos formais. Haveria problema se o filme estivese publicado e pertencesse a outro autor.

Rocha de Sousa tem insistido numa espécie de paradoxo a propósito de alguns dos seus trabalhos, procurando tornar clara a ideia, para a mesma peça, da diferença na semelhança. De facto, no caso do filme, convivemos com uma situação residual da memória a despertar, na personagem, um comportamento paroxístico cuja fase inicial se enovela, em semelhança, com uma espécie de performance alucinatória em que as imagens resgatadas da memória vêm ganhar semelhança na cena em que a mulher voyeurista acaba por cortar, com grande esforço, o cabo que a envolve.

No livro, a personagem é acompanhada desde a adolescência, mostrando-se desenquadrada em muitas situações, pacífica noutras, insinuante ou caprichosa ainda, como se o seu meio não fosse mais do que uma porta de entrada para espaços de devaneio, desde cedo de natureza erótica e sexual, uma ideia transgressiva e inconsequente da pintura. Ela casa cedo e é breve no desempenho. Volta a casar, traindo as normas das festas e delírios. Os filhos quase não existem. O seu cordão umbilical não é transformado em corda mas em auto-sequestros e libertações durante viagens. Após o último casamento, ou união de facto, assistimos ao desmoronamento desta mulher, de África para Portugal, entregue ao zelo contingente de outros homens, presa ao álcool e a uma inteligência que descobria o impossível e nada propunha para realizar. A solidão vem desvendar essa mulher na indigência; e, como sempre, invejando e amando os outros, já sem a mini-saia de outrora, afeita a opas lineares mas nas quais escondia a mutação do corpo e talvez da alma, sempre voltaria a vários vinhos consumíveis. Entidade do mundo contemporâneo, moldada por um colonialismo disfarçado, destinada ao luxo e à lassidão, esta figura, passando por situações abjectas e entregas surdas, pintando coisas absurdas e saturadas na cor, vai perder a sua própria história: o que fazer da comida seca, que verdade ainda lhe poderá caber por semelhança a todos os difusos vínculos genealógicos?

Os poços de fealdade nesta vida, confrontada com as seduções actuais, é uma beleza lírica apesar de todo o desassossego.

Sousa Carneiro

terça-feira, 13 de setembro de 2011

LANÇAMENTO - "COINCIDÊNCIAS VOLUNTÁRIAS" de ROCHA DE SOUSA

Talvez, O livro de todos os livros editados pelo autor, um livro, talvez polémico, talvez sobre o ensino, talvez sobre si próprio, talvez sobre as Belas-Artes ou a movida lisboeta numa época de Coincidências mais ou menos Voluntárias.

  Lançamento:
quinta-feira, dia 22 de Setembro pelas 19h00
No
Espaço Chiado

Rua da Misericórdia, 14, 1200-270 Lisboa

sábado, 16 de abril de 2011

POR OCASIÃO DO LANÇAMENTO DO LIVRO "TALVEZ IMAGENS E GENTE DE UM INQUIETO ACONTECER"




Rocha de Sousa é uma figura bem presente na minha vida. Aliás, o “mestre” é, para lá do amigo, um grande modelo e ídolo para mim — se as pessoas o conhecessem (tal como eu julgo conhecer) estou certo de que o sentimento seria o mesmo. O mundo já esgotou o stock de homens assim, cuja ideologia abarca valores ontológicos assentes em bases deontológicas e cívicas, manifestados generosamente na partilha do conhecimento plural.



nasceu a 29 de Agosto de 1938 na pacata cidade de Silves, antiga capital do Algarve. É um dos últimos génios (ignorados) da cultura do século XX, um homem multidisciplinar. A sua predisposição para a arte surgiu logo na infância, tal como ele diz: «riscando, pelas horas de silêncio, perturbadoras bandas desenhadas, quer quando escrevia, numa velha remington de meu pai, histórias mais ou menos tristes, entre postais ilustrados de palácios em ruínas», o que o levou a fazer escolhas decisivas na sua vida, primeiro ao exercer as funções de docente na Escola de Belas-Artes de Lisboa, e posteriormente afirmando-se como artista plástico e escritor de ficção. Também desenvolveu uma extensa actividade de divulgação cultural por meio de programas audiovisuais, sobretudo na RTP, a par de acções pedagógicas com diaporamas e vídeos. A investigação artística específica centrou-se no cinema em Super-8 e no vídeo. Sem esquecer o notável serviço público enquanto crítico de arte, qualidade que mantém até hoje.
ROCHA DE SOUSA
está representado em colecções nacionais e estrangeiras, nomeadamente: ESBAL, FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN, MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA, MUSEU DE SKOPJE e diversos museus regionais (Abel Manta, Ovar, Estremoz, Mirandela, entre outros). Escreveu literatura de ficção e algumas peças para teatro, como por exemplo "Amnésia", "Os Passos Encobertos", "Angola 61", "A Casa Revisitada". 
Enquanto escritor ficcionista abordou a dicotomia do Homem, a solidão e a impossibilidade da existência — isso está bem patente, por exemplo, no livro “A Culpa de Deus”. A guerra colonial, em Angola, para onde foi mobilizado, levou-o a explorar de forma mais pungente as contingências do quotidiano. Entretanto, cortando mato aqui e além, o escritor continuou a abrir caminho para a literatura de ficção, sempre voltado para os aspectos da condição humana. No livro, que hoje é lançado, "TALVEZ IMAGENS E GENTE DE UM INQUIETO ACONTECER", assim como Eurípedes, ele traz tudo para a mesa: o inquieto envolvimento do protagonista com as mais diferentes personalidades, gentes familiares e/ou públicas, abarcando as graves assimetrias do destino, os «desastres principais» (perdas e outras amputações) e a importância da sátira nas comunidades, nos seres civilizados. Rocha de Sousa coleccionou ao longo da sua vida, conforme podemos imaginar, muitas e boas referências no campo da literatura, indo desde Fernando Pessoa a André Malraux, mas Albert Camus é certamente a maior de todas. Não é tão importante, em todo o caso, classifica-lo num “top ten”, mas antes prestar homenagem a um homem criador e singularmente multidisciplinar.

Não vamos, então, medir as palavras: listas literárias são, basicamente, uma obscenidade. A Literatura é o reino do inefável e não é quantificável, as listas são para os menus de restaurante e afazeres domésticos. Há algo impróprio e promíscuo sobre todas aquelas letras e números misturados. Falo também por mim, alguém que cometeu esse pecado demasiadas vezes.


Miguel Baganha

sexta-feira, 15 de outubro de 2010


GUERNICA


Verão de 1936:

Espanha travava as mais ferozes guerras civis.
No país instalava-se o caos, o tormento, a confusão.

Estes problemas surgiram cento e trinta anos atrás, quando em 1808 Joseph-Bonaparte substituiu Charles XI de Espanha e derrubou a velha monarquia. Assim, as monarquias sucederam às repúblicas e as repúblicas às monarquias, mas sem calma ou satisfação. O ódio das classes, motins sangrentos, guerras religiosas ou nacionalistas anunciavam aquilo que viria a ser o terrível verão espanhol de 1936. Em Fevereiro de 1936, duas frentes ou dois blocos estão presentes: a Frente Popular ou Republicana, que agrupa os liberais da classe média, o Partido Socialista, o Partido Comunista e vários grupos da classe trabalhadora; e a Frente Nacionalista, que reuniu o C.E.D.A. (Partido Católico), os monarquistas e fascistas da "Falange", e alguns partidos da classe média. A guerra eclodiu durante a noite de 19-20 de Julho de 1936, dividindo a Espanha em duas zonas: os nacionalistas na parte ocidental de Burgos, a norte de Málaga e a sul. A leste, tinham Barcelona, Valência, Almeria, mas também Madrid, ao centro, que resistia a um grande banco onde os republicanos estavam agrupados. Eles tinham um aliado a Norte: o País Basco, insofismável fortificação do estado nacionalista, que representava a República espanhola pela sua autonomia. Com efeito, no Outono de 1936, o parlamento - as Cortes - consagrou solenemente a sua independência. A 7 de Outubro, a jovem república basca foi renomeada "Euzkadi" ao mesmo tempo que foram eleitos os membros do Governo Provisório. Esta eleição teve lugar em Guernica - uma pequena vila situada a 30 quilómetros de Bilbao, e a 10 quilómetros do mar – que, alguns meses mais tarde, viria a tornar-se dolorosamente famosa. Na primavera de 1937, embora o País Basco permanecesse de pé, o cerco foi-se fechando: os nacionalistas estavam agora na Biscaia. A sua progressão tornou-se difícil, porque a resistência basca era feroz. No entanto, depois de vários meses, Franco, o líder do movimento nacionalista "a Falange", apelou às tropas fascistas italianas e comandos alemães da Legião Condor. Em 31 de Março de 1937, o nacionalista general Mola ordenou uma ofensiva, e os aviões alemães lançaram bombardeamentos que podemos considerar como um ensaio real (prenúncio generalista do holocausto Nazi) daqueles que a Europa viria a sofrer dois anos mais tarde.

Domingo, 26 de Abril de 1937: era dia de mercado em Guernica. Os agricultores instalados na praça vinham de áreas vizinhas e preparavam-se para vender os seus produtos. Mas, neste dia fatídico eles só conseguiriam vender a vida e comprar sofrimento. Aparentemente a atmosfera era normal, quase pacífica, talvez um pouco mais austera do que em tempos de paz: a ansiedade estava presente no espírito. E com justa causa - às 16 horas, os sinos tocaram para anunciar um raid aéreo. Os Heinkel e Junkers 52 começaram a metralhar e a bombardear a vila, e às 17h30, o centro de Guernica estava arrasado, destruído: estimaram-se 1654 mortos, 889 feridos, numa população de 7.000 habitantes, dizimados como um autêntico formigueiro. Mulheres e crianças foram mutiladas ou mortas. Posteriormente, o povo viria a acusar o governo nacionalista basco deste massacre. Contudo, dez dias depois da tragédia, a bordo de um avião alemão abatido pelos bascos, um diário foi encontrado contendo a palavra "Garnika" e a data de “26 de Abril”!

Prelúdio para a "Guernica"

Por essa altura, Picasso vivia em Paris, na rue des Grands-Augustins, nº 7, num antigo palácio da época de Luís XIII. O jornalista Georges Sadoul, que o visitava regularmente nesse período, descreveu assim a oficina e a casa: «...eu fiquei nesta velha e bela escadaria com degraus rasos...a decadência deste esplêndido palácio arruinado fez-me lembrar uma das primeiras e uma das mais célebres casas de Picasso, esta casa peculiar chamava-se Le Bateau Lavoir...Picasso convidou-me a entrar numa enorme sala um pouco degradada...mobilada ao cuidado do acaso. Este espaço tem um atelier improvisado no sótão para trabalhar numa das maiores esperaas do teatro de vanguarda: Jean-Louis Barrault. Neste celeiro agostiniano, ele repetiu "Numância", cuja definição em si é uma espécie de poema épico, lírico e apaixonado à glória da Espanha republicana...». Assim, imaginamos a sala onde Picasso trabalhou: muito ampla, o tecto alto com as vigas expostas, janelas altas, paredes brancas, chão de azulejo partido, tudo desgastado pelo tempo. Assombrado pela revolução, os problemas que assolavam a sua pátria, ele não tinha desejo de pintar. Entretanto, recebeu uma encomenda de um mural destinado ao pavilhão espanhol da Exposição Internacional de Paris, cuja inauguração teria lugar em Junho de 1937. Picasso não tinha ânimo para trabalhar, mas de súbito, surgiu a tragédia da vila de Guernica, e assim que ele recebeu a notícia - 28 de Abril - começou a pintar: o tema do mural tinha sido encontrado - "GUERNICA" é um quadro de cólera, de indignação, um impulso de raiva.











O atelier de Picasso permitia a elaboração de obras de grande porte, mas ainda assim o enorme mural de 350 X 782 cm apenas pôde ajustar-se obliquamente na sala grande. A 1 de Maio, a tela já tinha as personagens principais desenhadas à mão. Mas ao longo de quase um mês, elas ainda iriam mudar, trocar de lugar, modificar-se. Anteriormente, Picasso já tinha manifestado a sua desaprovação pela política franquista duma forma puramente plástica. Em 8 de Janeiro de 1937, ele escreveu e ilustrou um panfleto contra o caudilho; ("Songe et Mensonge de Franco" - "Sueño y Mentira de Franco") "Sonho e Mentira de Franco". Trata-se de 14 gravuras completadas a 9 de Junho, - ajudando o curso dos acontecimentos – e outras quatro do mesmo espírito. Esta série é uma banda desenhada muito eloquente, de tom satírico, e pela sua matéria, as imagens podem encarar-se como uma pré-figuração da "Guernica". Sobre o "Sueno", Georges Sadoul escreveu, mais uma vez, em 1937: «...é um truculento parente dos célebres caprichos de Goya, um ataque de violência quase selvagem contra os monstros que com andam a insurreição fascista. Vemos uma figura monstruosa evocativa dos traidores montada num porco e tentando furar o sol com lanças; noutro caso aparece a montar um cavalo que perde suas entranhas, à semelhança dum cenário de touradas, e também uma figura feudal empunhando a bandeira e a espada que pode ser vista como os corpos das belas mulheres espanholas caídas sobre o sangue e a lama, massacradas por Franco e os aviões de Hitler...». Além disso, em Julho de 1936, Picasso expressou o seu compromisso com a República Espanhola, providenciando um apoio financeiro muito substancial. Também aceitou o cargo honorário de director do Museu do Prado para fazer relatórios sobre as pinturas transportadas a partir de Madrid para Valência. Ele disse: «Eu fui realmente capaz de fornecer o meu escritório, porque você sabe que, de momento, os verdadeiros conservadores do Prado podem ser cientistas ou artistas, mas na realidade eles são, todos os dias, os homens dos tanques, aviadores e soldados do exército popular que estão a lutar por Madrid.». Esta era a sua forma de manifestação e participação política. A partir daqui o seu empenho seria total, e o massacre da aldeia basca torna-lo-ia militante.

A caminho da obra











Então, à sua mesa, ele lutou com determinação. Nesta fase, Picasso vivia com a pintora e fotógrafa Dora Maar, que foi apresentada em Saint-Germain-des-Pres pelo poeta Paul Éluard, no início de 1936. Criada na Argentina, e mais tarde em França, esta franco-croata de origem, relacionava-se, por volta de 1930, com os surrealistas Breton, Eluard, Aragon, Ernst, Dali, entre outros. Enquanto isso, os vários esboços preparatórios do mural continuavam dia após dia, permitindo que o espectador seguisse as mudanças feitas durante a noite, as mudanças experimentadas. Picasso, muito metodicamente, datou cada um dos seus ensaios como se quisesse dar ao mundo referências para o desenvolvimento cronológico da sua pesquisa.

É a partir destes níveis que surge o caminho dos pensamentos, as preocupações do artista, as imagens obsessivas, símbolos que ele usou para as expressar. "Guernica", apocalipse a preto e branco, não é a história poetizada tragicamente fora de um drama, mas o símbolo de todos os "estúpidos passados e futuros sangrentos".

Adicionalmente, cada personagem parece ser alegórico. Por isso, ao longo da vida, os críticos de arte e biógrafos de Picasso desmistificaram e interpretaram de diversas formas o significado oculto de cada um. A tragédia de Guernica tocou males, alguns adereços e várias tabelas. Nomeadamente, da esquerda para a direita: um touro, uma mãe e seu filho, um guerreiro deitado e esquartejado, uma pomba, um cavalo, um braço suspenso (ou decepado) que segura uma lanterna, um rosto esvoaçante, uma mulher disforme, com os membros enormemente ampliados, que se arrasta (iluminada parcialmente pela luz da lanterna) e ainda alguém que escapa aterrorizado de uma casa em chamas, (talvez a sua) os braços levantados para o céu em desespero. Todas estas coisasm um aspecto em comum: as suas bocas abertas - trágicas, ofegantes, desesperadas ou imprecatórias.
A arquitectura do mural tem por fundo um triângulo delimitado pela mão esquerda do personagem deitado, o joelho esquerdo da mulher com membros deformados e a lâmpada acesa, no centro da parte superior. Todo o trabalho é apoiado e organizado sob esta rigorosa estrutura.

Oito fases e alguns esboços

Fase I

A foto captada a 11 de Maio por Dora Maar, regista, na sua forma quase final, as quatro personagens femininas, que, no entanto, ainda continuarão a ser trabalhadas em esboços separados; a miserável que tenta escapar da casa a arder é totalmente abraçada pelas chamas, o corpo (cabeça voltada para o lado direito do espectador) do guerreiro é dirigido para a direita, o seu braço direito está fixo na vertical, na linha média do triângulo, a sua mão esquerda segura uma espada partida, e o touro já assume a posição final, enquanto o cavalo está deitado no chão, enrolado e dobrado sobre si mesmo. À direita, seguindo o guerreiro, está uma mulher (de seios nus) caída e uma pomba no seu ombro; a mulher irá desaparecer e a ave mudará de posição.

Fase II


Os rectângulos escuros aprofundam-se conferindo maior dramatização ao mural. No centro da parte superior, um sol (que mais parece uma flor gigante) circunda o punho cerrado – desenhado com precisão – do combatente, cujos membros foram deslocados. A mão fechada aprisiona alguns ramos ou galhos quebrados. A pomba no canto inferior direito não existe mais. Uma estaca trespassa os flancos do cavalo.
Fase III

O branco e cinzento invade agora o fundo do trabalho. A cabeça do guerreiro está agora à esquerda, com a face voltada para o chão. O sol tornou-se uma bola fina e oval. Perto do touro surgiu uma lua crescente.

Fase IV

Nesta fase, o cavalo já está fixado na sua aparência final, projectado, desenvolvido de forma mais relevante do que os outros protagonistas. Pedaços de tecido são colados sobre os personagens e lágrimas são desenhadas nos seus olhos. O corpo do touro volta-se para a esquerda, tornando-o mais expressivo, mais vivo. A mulher cercada por chamas é completamente rasgada.

Fase V

Os tecidos foram removidos. A figura tombada do lado direito desapareceu.

Fase VI

Regresso dos tecidos colados sobre as personagens.

Fase VII

Os tecidos desaparecem novamente, definitivamente. A pomba voltou, e é colocada entre o touro e o cavalo. O guerreiro voltou-se de rosto para cima. Picasso desenha uma série de pequenas linhas verticais sobre quase todo o corpo do cavalo e desenhou uma seta próxima dos seus cascos apontada na direcção da mãe com o filho e do touro. Uma lâmpada brilha no centro da bola oval.


Fase Final

O trabalho é refinado, equilibrado, construído: todos os elementos que estavam a mais desapareceram. O cavalo é completamente coberto de linhas (tracejadas) verticais, a mãe veste uma saia listada e um ramo de oliveira cresceu junto ao punho do gládio.


Símbolos

Perante a tela, o espectador é imediatamente atingido pela imagem de violência e desespero que dela emerge. Além disso, o uso de símbolos confere a "Guernica" uma segunda dimensão. Picasso brinca com a sensibilidade do público, mas também age sobre o subconsciente, levando-o a fazer um esforço de concentração, a introspecção antes da sua representação iconográfica. Assim, tal como um monstro, ou um dragão mitológico, sozinho em toda a obra, o Cavalo é muito mais um espírito maligno do que uma vítima. Se observarmos com atenção, poderemos ver que entre os seus cascos, num tropel de raiva, surge a seta falangista. Ao animal podemos atribuir a representação da Espanha Nacionalista. Os seus olhos são redondos, duros, inexpressivos – logo cruéis (ele já estava presente no "Sonho e Mentira de Franco", com as bandeiras franquistas saindo dos seus flancos abertos). Na mesma cena, o cavalo insulta o touro ou blasfema contra a pomba, imagem do Espírito Santo situada perto de seu focinho? Mártir desarticulado, deitado sobre os membros cruzados nas primeiras fases da pintura, o Guerreiro, que tantas vezes muda de posição ao longo do trabalho, tem a cabeça deitada perto dos cascos do cavalo. Poderá ele simbolizar a queda da República espanhola destruída pelo fascismo de Franco? Seja como for, um lampejo de esperança surge no gládio quebrado, onde Picasso fez crescer um ramo de oliveira. Também é tentador pensarmos no Touro como o totem do povo espanhol. Majestoso, calmo e poderoso, ele protege a mãe e a criança. Os seus olhos, contrastando com os do cavalo, são quase humanos. Ele também esteve representado no panfleto, desdenhando, indiferente aos ataques do Cavalo-Monstro. Por sua vez, a Mater Dolorosa não pode simbolizar apenas a aldeia de Guernica, onde morreram tantas mulheres e crianças, ou Espanha destruída nas suas esperanças, no seu futuro; ela também representa a cidade de Madrid. Não é por acaso que a palavra "madre", cuja sonância se aproxima da palavra "Madrid", significa mãe em espanhol. Além disso, a Guerra Civil Espanhola começou com o cerco de Madrid. A sua primeira aparição no mural data de 8 de Maio, onde é colocada à direita, e o seu filho é uma ferida em sangue. Picasso fez muitos esboços e pesquisas para chegar à elaboração final deste duo. A criança às vezes parecia morta, outras vezes viva. A sua ferida só desaparece no momento em que ele transita com a mãe para o lado esquerdo. O Perfil Da Lanterna já está muito puro, muito perfeito nas primeiras fases da "Guernica". E pouco mudou depois disso. A lanterna que se dirige para o cavalo parece iluminar o centro da acção ou lutar contra o obscurantismo do regime de Franco – ela é brandida quase como um punhal. Esta imagem também pode ser comparada a uma anedota relacionada com a vida íntima de Picasso e Dora Maar: na noite em que a jovem mulher decidiu deixar o pintor para voltar para sua casa, ela passou a usar uma lanterna para iluminar a parte superior da sua varanda. Para alguns críticos, este perfil é o de Dora Maar. Os membros deformados da Mulher Em Fuga contrariam o seu curso. Assim como acontece em alguns pesadelos - alguém que tenta escapar do perigo, em vão. Os membros recusam mover-se, ficam pesados, paralisados. O terror e o horror aumentam. No penúltimo estado da obra, Picasso tinha colocado um pedaço de papel de seda – de aspecto ligeiramente escatológico - na mão esquerda. Em seguida, removeu-o. A Mulher Que Tenta Fugir Da Casa Em Chamas, está presente desde a primeira fase e a ideia primária era fazê-la aparecer completamente coberta de moscas, mas no entanto desapareceu sob a língua afiada das chamas. Gradualmente, Picasso foi-se soltando. Esta personagem é, com a mãe e a criança e o guerreiro caído no solo, a mais trágica, a mais desesperada, a mais afectada do mural: a vítima. No entanto, parece que o pintor deu muito mais importância e mais movimento ao lado esquerdo do seu mural. O cavalo, o guerreiro, o touro, a mãe, o perfil da lanterna são mais agitados, mais animados do que os últimos dois protagonistas da direita. Além disso, todos os rostos estão voltados para cima, excepto o da cabeça (fantasmagórica) flutuante voltada de perfil para a lanterna e o da mulher em fuga, cuja cabeça oblonga está dentro de um triângulo, que são traçados paralelamente até à base do mural, para simbolizar um movimento de fuga, uma corrida desesperada. Estas duas figuras libertam uma profunda atmosfera dramática.

Em Junho do mesmo ano - dois meses após o início – Picasso completou com virtuosismo a sua obra-prima - reflexo da sua justa ira no momento em que pôde dar livre curso à sua natureza sincera, ardente e entusiástica.

As viagens de "Guernica"

Algum tempo depois, "Guernica" foi emprestada ao MoMA. Na verdade, Picasso confiou a obra ao museu norte-americano para que ela não caísse nas mãos de Franco, após a exposição de 1937, com a condição de que o mural regressasse a Espanha somente quando a ditadura franquista desaparecesse. No entanto, a pintura foi a Nova York em 1939 para a exposição internacional, fazendo ainda uma paragem em Estocolmo.
Posteriormente, fez mais algumas viagens. Em Dezembro de 1953 e Janeiro
de 1954, figurou na Bienal de São Paulo (Brasil). Foi exibida novamente em Paris no Museu des Artes Décoratifs, e em seguida, regressou a Estocolmo via Munique. Passou ainda pelo Palais des Beaux-Arts, em Bruxelas, em Maio-Junho de 1956, e Amsterdão no Stedelijk Museum, em Julho-Setembro de 1956, antes de voltar a Nova York onde permaneceu a maior parte do tempo. A partir de 1981, com a morte de Francisco Franco, a obra voltou ao território espanhol. Actualmente encontra-se no Museu Nacional Centro de Arte Reyna Sofía, em Madrid.

"Guernica" em Nova York
















Em Nova York, como em cada uma das exposições já referidas, "Guernica" é apresentada envolta por todos os desenhos preparatórios (até
mesmo os que se realizaram após a sua conclusão, mas inspirados nela), ocupando uma sala inteira.

Picasso nunca datou ou assinou a obra final -
epopeia expressioni
sta, drama simbólico, onde os actores permanecerão definitivamente em cena, congelados para sempre em desespero.

Pelo seu próprio tema, esta obra move-se para lá da sátira, tornando-se no símbolo de todas as mortes desnecessárias.

Aqui podemos observar a "Guernica" em imagem cinética e tridimensional

Miguel Baganha