sábado, 16 de abril de 2011

POR OCASIÃO DO LANÇAMENTO DO LIVRO "TALVEZ IMAGENS E GENTE DE UM INQUIETO ACONTECER"




Rocha de Sousa é uma figura bem presente na minha vida. Aliás, o “mestre” é, para lá do amigo, um grande modelo e ídolo para mim — se as pessoas o conhecessem (tal como eu julgo conhecer) estou certo de que o sentimento seria o mesmo. O mundo já esgotou o stock de homens assim, cuja ideologia abarca valores ontológicos assentes em bases deontológicas e cívicas, manifestados generosamente na partilha do conhecimento plural.



nasceu a 29 de Agosto de 1938 na pacata cidade de Silves, antiga capital do Algarve. É um dos últimos génios (ignorados) da cultura do século XX, um homem multidisciplinar. A sua predisposição para a arte surgiu logo na infância, tal como ele diz: «riscando, pelas horas de silêncio, perturbadoras bandas desenhadas, quer quando escrevia, numa velha remington de meu pai, histórias mais ou menos tristes, entre postais ilustrados de palácios em ruínas», o que o levou a fazer escolhas decisivas na sua vida, primeiro ao exercer as funções de docente na Escola de Belas-Artes de Lisboa, e posteriormente afirmando-se como artista plástico e escritor de ficção. Também desenvolveu uma extensa actividade de divulgação cultural por meio de programas audiovisuais, sobretudo na RTP, a par de acções pedagógicas com diaporamas e vídeos. A investigação artística específica centrou-se no cinema em Super-8 e no vídeo. Sem esquecer o notável serviço público enquanto crítico de arte, qualidade que mantém até hoje.
ROCHA DE SOUSA
está representado em colecções nacionais e estrangeiras, nomeadamente: ESBAL, FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN, MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA, MUSEU DE SKOPJE e diversos museus regionais (Abel Manta, Ovar, Estremoz, Mirandela, entre outros). Escreveu literatura de ficção e algumas peças para teatro, como por exemplo "Amnésia", "Os Passos Encobertos", "Angola 61", "A Casa Revisitada". 
Enquanto escritor ficcionista abordou a dicotomia do Homem, a solidão e a impossibilidade da existência — isso está bem patente, por exemplo, no livro “A Culpa de Deus”. A guerra colonial, em Angola, para onde foi mobilizado, levou-o a explorar de forma mais pungente as contingências do quotidiano. Entretanto, cortando mato aqui e além, o escritor continuou a abrir caminho para a literatura de ficção, sempre voltado para os aspectos da condição humana. No livro, que hoje é lançado, "TALVEZ IMAGENS E GENTE DE UM INQUIETO ACONTECER", assim como Eurípedes, ele traz tudo para a mesa: o inquieto envolvimento do protagonista com as mais diferentes personalidades, gentes familiares e/ou públicas, abarcando as graves assimetrias do destino, os «desastres principais» (perdas e outras amputações) e a importância da sátira nas comunidades, nos seres civilizados. Rocha de Sousa coleccionou ao longo da sua vida, conforme podemos imaginar, muitas e boas referências no campo da literatura, indo desde Fernando Pessoa a André Malraux, mas Albert Camus é certamente a maior de todas. Não é tão importante, em todo o caso, classifica-lo num “top ten”, mas antes prestar homenagem a um homem criador e singularmente multidisciplinar.

Não vamos, então, medir as palavras: listas literárias são, basicamente, uma obscenidade. A Literatura é o reino do inefável e não é quantificável, as listas são para os menus de restaurante e afazeres domésticos. Há algo impróprio e promíscuo sobre todas aquelas letras e números misturados. Falo também por mim, alguém que cometeu esse pecado demasiadas vezes.


Miguel Baganha

1 comentário:

Rocha de Sousa disse...

Não há forma, nem mesmo com o Mundo de Aventuras nas mãos, de achar as palavras certas para agradecer esta homenagem, o sentido
dela, o valor dela, a raridade que me pretende atribuir e é de sincera
voz mas imprestável para a existên-
cia escondida, perdível. Bom aceno, meu amigo, hora adiantada do encontro de almas, dos jogos que nos transcendem e das melancolias
que acolhemos. Tenho o coração ten-
so. Não tinha visto o seu texto, como não sabia como esperar pelas 18 horas. Houve qualquer coisa, da
vossa parte (e agora ainda mais) e da parte da minha correspondente, que me fizeram tocar a metafísica do ser. Um grande agradecimento. Depois escrevo mais e melhor e retomarei o Killer: está visto que, apesar dos vários e grandes
esforços que tenho feito para o alcançar, o poeta leva tudo para longe ou corta o plano antes de tempo.